A praia é sempre um grande observatório. Estou sentada na areia, um vento gostoso, sol brando, admirando onda após onda do mar; totalmente encantada e reflexiva, como sempre fico nessas ocasiões. Chega um casal, que se instala bem do meu lado. Ele com pose de galã, saradão, sunga estampada e correntão de ouro no pescoço; ela com boné estiloso, de aba reta, biquíni pequenino e um shape bastante “avantajado”, digamos. Nem ouço a voz dela, que responde aos diálogos com sussurros, mas ele fala bastante alto, num claro sotaque carioca, com “x” nos “s” finais e aquele “r” que soa como um “rhhhh” sabe? Poderia, sem dúvida, ser cover do vocalista da Banda Blitz.
– Bebêee, cadê o óoooleo?
Ela tira da bolsa o óleo, entrega para ele e vira de costas.
– Não vou passar naix costaix não, é na frente meeeixmo!, reclama.
Ela vira de frente.
– Errrgue o cabeeeelo. – dá outra ordem.
Ela ergue o cabelo. Ele começa a passar o óleo no colo – o peito, pra ficar mais claro.
– Pô, bebê, trocou de biquíni de novo! Assim não fica legal, meu, fica muita marquinha. Se quer fazer marquinha legal tem que usar um modelo só de biquíni. – ensina.
Ela em silêncio, ou, se responde, é com sussurro. Ele segue passando óleo nas costas, nos glúteos salientes dela, como quem cuida de um bem valioso. Termina o serviço, corre altivo para o mar, sacode o cabelo ao vento. Volta logo do mar, preocupado:
– Esxqueci de passar protetor no roooosxto, bebê, passa pra mim!
Senta na frente dela, tira a corrente do pescoço, fecha o olho e fica segurando a franja avantajada, para liberar a testa. Ela passa delicadamente o protetor no rosto dele, por minutos e mais minutos, entre bitoquinhas. “Passa aqui também”, ele diz, aponta para as pálpebras. E segue o falatório, enquanto ainda segura a franja para o alto:
– Pô, bebê, tá bonitão o meu cabeeelo hein? E isso que tu não viu como tava compridaço, aí cortei. Maisx deu um dó hein?
Ela acaba de passar o protetor, ele coloca de volta a corrente no pescoço, se autoexamina com aquela cara de quem gosta do que vê, deita do lado dela, que toma sol deitada de bruços.
Antes de eu decidir que tinha que sair dali, percebendo que seria impossível manter a paz interior, ele faz outras declarações de amor próprio, chegando ao ápice:
– Minha mãe foi uma heroína, bebê. Uma mulher muito foda. – faz pose de pensativo e segue falando o quanto sua mãe o educou bem. Quando olho, ele está falando muito sério, dando de dedo na cara dela, uma declaração importantíssima que ela nunca, NUNCA deve esquecer:
– Você tem que ser eternamente grata à minha mãe, entendeu bem, bebê?! E-ter-na-men-te-gra-ta!
Patrícia Moresco
