A hora do cansaço

É um tempo estranho. Parece que, junto com o viço da pele, tenho perdido certos viços que antes achava que me eram intrínsecos. Algo como perder alguns cabelos ou como certas plantas perdem as folhas, mas sem a expectativa de novo.

Parece que escuto o ritmo da vida bater-me à porta e dizer “hey, podemos dormir?” Finjo não ouvir, como sempre fiz; mas percebo que a voz tem ecoado mais, especialmente nos finais de noites e nos finais de filmes. 

Parece que algo em tudo está lento e cansado, pedindo colo como a criança que ainda não fala – ainda que sem o choro alto das crianças. Não falo de ser triste, não é disso que se trata. Nem toda lentidão é uma tristeza. Falo de um cansaço tranquilo, que acorda e faz um bom café, com prazer, ainda que tivesse vontade de dormir um pouco mais. 

Cansaço de umas lutas, parece. Será que acertei ou errei, nas escolhas que fiz até aqui? De onde me trouxeram, compreendo; mas aonde me levarão? “A lugar nenhum, se não fizeres mais escolhas”, diz a voz. É esse cansaço, também: escolher tanto tem sido mais desgastante. 

Sinto que agora estou; antes achava que era. Há uma distância importante entre ser e estar, uma controversa impermanência que tanto me confunde.

Talvez seja apenas sono. O esforço acumulado da idade mais madura, será?

Como sempre, não sei. Apago a luz, bebo um uísque, ligo o despertador. E amanhã vou acordar e passar um bom café, calmamente… Ainda que queira dormir mais.

– Patrícia Moresco