O debate público sobre violência contra a mulher tem se intensificado. Estatísticas, reportagens e manifestações sociais tornam esse tema cada vez mais visível. O problema é global, mas o Brasil atingiu números recordes em 2025:
Segundo dados do Fórum de Segurança Pública, o Brasil registrou, até o início de março de 2025, o maior número de feminicídios da última década. Foram 1.568 mulheres assassinadas em razão de sua condição de gênero, um aumento de 4,7% em relação a 2024.
Precisamos considerar que as estatísticas também podem representar melhor a realidade agora do que nos anos anteriores, indicando um contexto em que mais casos têm sido relatados. É possível que ainda não tenhamos dados efetivos da situação, e que talvez essa medição efetiva nunca seja atingida, considerando tantos fatores envolvidos.
Em todo caso, diante dos casos que se apresentam, a reação da sociedade costuma seguir dois caminhos simultâneos: indignação moral e demanda por punição. Leis são criadas ou reformuladas, mecanismos de proteção são ampliados e instituições passam a atuar com maior rigor.
Entre o controle de causas e a mudança estrutural
As medidas punitivas são essenciais, certamente, porque oferecem proteção imediata e estabelecem limites institucionais claros para comportamentos violentos. Entretanto, ao mesmo tempo em que são necessárias, também revelam uma realidade incômoda:
Leis conseguem conter comportamentos, o topo do iceberg; estão corrigindo consequências. Tratar as causas exige transformações culturais profundas, que não acontecem na mesma velocidade.
A violência interpessoal emerge de uma combinação complexa de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Entre eles, é indispensável olharmos para os principais, que são os padrões culturais de relacionamento, formas aprendidas de lidar com frustração e poder, modelos familiares e normas sociais.
São esses elementos que, ao longo do tempo, passam a definir o que é aceitável ou intolerável dentro de uma comunidade.
Mudanças nesses padrões tendem a ocorrer lentamente, porque cultura é um fenômeno intergeracional.
Valores, comportamentos e expectativas são transmitidos de pais para filhos, de grupos para indivíduos, de instituições para a sociedade. Quando uma cultura começa a questionar certos comportamentos, ela inicia um processo de transformação que pode levar décadas.
Essa constatação levanta uma pergunta inevitável: se mudanças culturais levam gerações, qual é o papel das pessoas que vivem agora?
O que podemos (precisamos) fazer agora
Uma das respostas mais consistentes encontradas nas ciências sociais e na psicologia do comportamento aponta para a importância da educação emocional.
Muitos episódios de violência estão associados à incapacidade de lidar com emoções intensas como rejeição, ciúme, frustração ou sensação de perda de controle.
A regulação emocional, habilidade que permite reconhecer e administrar esses estados internos, é algo que precisa ser aprendido ao longo da vida.
Ambientes familiares, escolares e sociais desempenham papel decisivo nesse aprendizado. Crianças e jovens constroem sua compreensão sobre relacionamentos observando exemplos concretos: como conflitos são resolvidos, como limites são estabelecidos e como respeito e empatia se manifestam nas interações diárias. A cultura de uma sociedade é formada justamente pela repetição desses padrões ao longo do tempo.
Outro elemento central nesse processo é a empatia.
Estudos em neurociência e psicologia social mostram que a capacidade de perceber e responder às emoções de outras pessoas está associada a redes neurais específicas que envolvem sistemas de espelhamento e áreas relacionadas à cognição social. Embora possua base biológica, a empatia também depende de experiências sociais e aprendizado cultural: ambientes que valorizam cooperação, respeito e responsabilidade tendem a fortalecer essa capacidade.
É indispensável também ter consciência sobre comportamentos que são violentos, ainda que não sejam manifestações físicas.
A violência nas relações frequentemente começa de forma sutil, por meio de controle, manipulação emocional, isolamento social, desqualificação constante ou restrição de autonomia; comportamentos que podem se apresentar como cuidado, proteção ou demonstrações de afeto, o que torna sua identificação mais difícil.
Desenvolver clareza sobre esses sinais é parte fundamental da prevenção, pois permite reconhecer dinâmicas de poder e controle antes que se agravem. A informação e o compartilhamento, nesse sentido, atuam como ferramenta de proteção e fortalecimento da autonomia nas relações.
A transformação cultural ocorre, portanto, em múltiplos níveis: instituições públicas estabelecem normas e limites legais; comunidades reforçam valores compartilhados; indivíduos reproduzem ou modificam padrões de comportamento em suas próprias relações.
Isso significa que mudanças culturais começam também em escolhas cotidianas: na forma como lidamos com conflitos, na maneira como ensinamos jovens a administrar emoções difíceis e nos exemplos que oferecemos dentro de nossas próprias relações.
A história mostra que sociedades são capazes de redefinir profundamente suas normas morais ao longo do tempo. Práticas antes consideradas aceitáveis passam a ser vistas como intoleráveis, e novos padrões de convivência se estabelecem gradualmente.
Quando compreendemos que cultura é um processo em constante construção, percebemos que cada geração ocupa uma posição intermediária nesse movimento. Recebemos valores e comportamentos de quem veio antes, e temos a responsabilidade de melhorar para quem vem depois.
Mudanças culturais levam gerações, mas cada geração decide, em alguma medida, qual cultura ajudará a construir.
Patrícia Moresco
