Vamos falar a verdade: a gente vive em função dos anos, mas no fundo nem para pra pensar sobre o que isso significa.
Dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta, sessenta anos, e aí a pessoa envelhece e ganha, finalmente, alguma preferência, nem que seja nas filas e nas vagas de estacionamento. Mas a gente sabe muito bem que nem todo sessentão precisava de prioridade.
E aí? O que significam os aniversários?
Aí entra em cena o código social: o aniversário deve ser comemorado. No aniversário, a gente conta os anos, coloca uma métrica na vida e cria rótulos: o rótulo do velho demais, do novo demais, do mais velho que eu, do mais novo que eu, da diferença de idade que, como toda diferença, seleciona e classifica. E a gente, no fim das contas, comemora nada mais do que um rótulo.
Se há conquistas a serem comemoradas, por que esperar essa marca chamada aniversário? Deveríamos, sim, espalhar ao longo dos dias nossas diversas comemorações, e não esperar o aniversário para o melhor bolo, o churrasquinho, a reunião de amigos.
E se há dores a serem esquecidas, porque esperar o aniversário para estabelecer o marco zero? Essa conta precisa ser zerada no dia seguinte, na hora seguinte, no minuto seguinte.
Quem sabe, se a vida não fosse pensada em razão do ano, pensaríamos melhor, daríamos continuação, não estaríamos pensando em acabar, em nos refugiar de uma meta não cumprida, de um mandato mal exercido, de uma conta não quitada.
Ao fim de tudo, a verdade é que estamos escravizados por uma medida que nem sabemos por que é que existe, mas que, de alguma forma, nos sincroniza, nos permite cobrar compromissos, encontros e planejamentos, e essa é – na minha opinião – a parte maravilhosa da escravidão do tempo.
Então, vamos comemorar nossos aniversários. Vamos seguir a convenção, vangloriar a finitude dos ciclos, programar nossas festas, encher a cara, prometer que nesse ano será diferente, ou será melhor, ou que pelo menos não será igual. Vamos colocar metas para nossos rótulos: atingir a melhor forma física da vida, tratar as manchas do rosto, clarear os dentes – porque, enfim, a partir de um certo momento tudo se resume a lutar contra nosso novo rótulo, provar que ele não significa nada, e que, olha só, no auge dos quarenta e tantos, a gente está bem melhor do que muito jovem.
Fazer aniversário, no fim das contas, é isso: receber a bandeira de largada de uma nova luta para contradizer o nosso rótulo, para mais ou para menos, inesgotavelmente.
