Eles chegaram há uns 6 anos, rebeldes e tortos, como quem avisa logo na chegada que nada os poderia deter.
Quando encontrei o primeiro, achei graça; achei curiosa a forma como se apresentava, um pequeno rebento distorcido que parecia ter feito força para nascer e espetava o ar. Munida de uma pinça, encerrei a vida dos primeiros rebentos e dos outros iguais,que o seguiram.
Dali em diante, a rotina de autocuidados passou a incluir uma ronda em busca dos rebeldes da semana. Fui eliminando, um a um, na ânsia de não ler aquilo que tentavam me escrever nas suas ondulações.
Mas o tempo vem com força quando quer entregar uma mensagem. Os anos passando, entendi que precisaria tomar uma posição além de uma ronda e uma pinça. Eu precisava me render e aceitar que, por mais que me recheasse de vitaminas, eles continuariam chegando em equipes, e vinham para ficar.
– O que fazer com meus cabelos brancos?!
Um razoável dilema na vida da mulher. Acredito que não há uma sequer que não se depare com esse momento difícil de decisão, o qual será amparado, como sempre, por uma carga de crenças, experiências e necessidades.
Os homens, por sua vez, em geral se beneficiam de seus cabelos brancos, que lhe conferem ar de maturidade ou autoridade. Muitas vezes acompanhados de mandíbulas mais salientes, parecem ser um conjunto apropriado de masculinidade.
Na prática, isso não representa de fato qualquer benefício, já que os cabelos brancos demarcam idade ou genética, apenas; mas a mente humana é permeada dessas armadilhas primitivas que, até nisso, estabelecem certas discriminações.
A despeito disso, fato é que nunca antes eu havia parado para refletir sobre por que a chegada dos cabelos brancos faz os homens parecerem mais maduros, e as mulheres, simplesmente mais velhas.
Pesquisando um pouco e analisando fotos de homens e mulheres em idade semelhante, vejo que o envelhecimento feminino costuma afetar mais o colágeno, também, fazendo o cabelo branco ser percebido em conjunto com outras mudanças. Um golpe a mais.
Nesse enleio, me percebo então preocupada. Por que isso me preocupa? Logo eu, sempre tão autêntica e com poucas preocupações dessa natureza? Logo eu, que sempre me coloquei na contramão dos movimentos de massa desprovidos de coerência? Tenho um pensamento sobre meu próprio pensamento.
Pensar em não pensar também é um posicionamento, e decido que é nesse lugar que prefiro ficar; deixar o tempo cumprir o seu papel. De frente para o espelho, escovando os cabelos, nesse ato de asseio e de autocuidado, vejo os fios brancos agora mais longos, se misturando aos outros, num efeito bonito, quase artístico.
É estranho dizer que gosto do que vejo? Tenho curiosidade e alguma pressa de saber: como será quando muitos mais chegarem?
Talvez eu goste, talvez não, e prefira mudar… Mas toda vez que observo a grande quantidade de fios que já se misturam às minhas finas madeixas, tenho um lembrete sobre a vida:
– Hey, nós estamos chegando por aqui… E você, aonde está indo?
A mensagem que me passam, de um jeito literalmente torto, é que iniciamos a contagem regressiva.
“Não perca tempo”, é o que me dizem. E é assim que escolho viver, por enquanto: sem escondê-los, aceitando o tempo e esse lembrete importantíssimo para os todos os dias que me forem possíveis.
